DISCURSO DO CARDEAL NA AULA INAUGURAL DO ISFIT 2026

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Discurso 

Dom Virgílio Cardeal do Carmo da Silva, SDB

Arcebispo de Díli e Presidente da CET

“Rumo a uma educação humanista: explorando o potencial da geração digital”

Magnífico Reitor do ISFIT e demais membros do corpo diretivo; 

Sua Excelência Sr. Dr. José Honório, Ministro do Ensino Superior, Ciência e Cultura;

Digníssimo Decano da Faculdade de Teologia de Kentungan: Professor Dr. Mulyanto; 

Ilustres Docentes; 

Estimados Estudantes; 

Excelentíssimos Senhores e Senhoras;

Introdução

Antes de tudo, gostaria de agradecer a iniciativa do ISFIT em organizar este ato académico de aula inaugural, com uma conferência sobre um tema de suma importância e interesse para os tempos atuais: “Toward a humanistic education: exploring the potential of the digital generation”, ou seja, “Rumo a uma educação humanista: explorando o potencial da geração digital”.

Este tema coloca-nos perante a situação complexa que atravessamos: como pode a educação de hoje continuar a desempenhar a sua função na humanização do homem perante a vasta influência do mundo digital? Gostaria de agradecer a disponibilidade do Professor Dr. Mulyanto, Decano da Faculdade de Teologia de Kentungan, Yogyakarta, pelo seu valioso contributo intelectual nesta aula inaugural, ajudando-nos a refletir sobre o tema lançado pelo ISFIT. Agradeço a presença de todos nesta sessão.

Observamos que o desenvolvimento tecnológico traz benefícios significativos para a humanidade em áreas como a comunicação, os transportes, a indústria e o mercado. Estes avanços técnicos contribuem para o progresso e facilitam a vida quotidiana. No entanto, para garantir um progresso verdadeiro, é imperativo que a dignidade humana e o bem comum continuem a ser prioridades sólidas, tanto para os indivíduos como para as entidades públicas. Devemos reconhecer que a tecnologia também possui um potencial destrutivo quando colocada ao serviço de ideologias anti-humanas.

Perante o domínio da tecnologia na nossa vida atual, a presença da Inteligência Artificial marcará, especialmente, uma nova era na vida dos indivíduos e da sociedade no seu todo. Este é o desafio que devemos enfrentar: refletir sobre a autenticidade do nosso testemunho, sobre a nossa capacidade de ouvir e de falar; de compreender e de ser compreendido. Temos o dever de trabalhar juntos para desenvolver um pensamento e uma linguagem que, sendo frutos do nosso tempo, deem voz ao Amor.

No documento Vademecum do Pacto Educativo Global, o Papa Francisco sublinhou a necessidade de colocar na base de cada ação educativa um sólido fundamento antropológico — uma sã e reta visão sobre a pessoa humana. O Papa afirma que cada mudança precisa de um caminho educativo para reconstruir o tecido das relações, amadurecer uma nova solidariedade universal e dar vida a uma sociedade mais acolhedora. É necessário compor um novo humanismo que supere a metamorfose cultural e antropológica da sociedade atual.

No limiar de uma era marcada pela presença tecnológica, Timor-Leste encontra-se num ponto de inflexão histórico. Sendo uma das nações mais jovens do mundo, onde a “Geração Digital” emerge como a força motriz do desenvolvimento nacional, o país enfrenta o desafio de harmonizar o progresso técnico com as raízes profundas da sua identidade cultural e da sua fé. Neste cenário, a proposta de uma Educação Humanista não é apenas uma escolha pedagógica, mas uma necessidade existencial. O Pacto Educativo Global surge como um farol para esta transição, propondo uma “aldeia educativa” que coloca a pessoa no centro de todos os processos.

No contexto timorense, é preciso transformar o potencial digital dos nossos jovens — muitas vezes reduzido ao consumo passivo de redes sociais — em ferramentas de autêntico desenvolvimento humano, solidariedade e justiça social. Ao integrar a ética da fraternidade com a literacia digital, procura-se responder à pergunta central: como pode a tecnologia, em vez de isolar ou desumanizar, servir de ponte para o “florescimento” da pessoa humana e para a construção de um Timor-Leste mais inclusivo e consciente da sua “Casa Comum”?

Inspirado no primeiro compromisso do Pacto Educativo Global — “Colocar a pessoa no centro” — este princípio exige uma mudança de paradigma nas instituições de ensino em Timor-Leste. Este paradigma da humanização tem por objetivo educar os estudantes para conhecerem a totalidade do ser, promovendo uma compreensão integrada da pessoa humana: corpo, alma e espírito.

Para isso, é necessário o compromisso de todos os agentes ativos da sociedade que trabalham incansavelmente na educação da nova geração. Esta é, primordialmente, a missão da Igreja Católica: oferecer uma educação que esteja ao serviço do homem, do seu existir no mundo e de uma vida enraizada na fé em Cristo Jesus.

No contexto do nosso país, marcado pelo pós-conflito e pela reconstrução nacional, a educação foi, por muito tempo, vista apenas como uma ferramenta de alfabetização funcional. Hoje, na era digital, o desafio é garantir que a tecnologia não transforme o aluno num mero “utilizador” ou “consumidor de dados”, mas que o reconheça como um sujeito pleno de direitos, cultura e espiritualidade. Nas instituições educativas, “colocar a pessoa no centro” significa que o currículo deve adaptar-se à realidade dos timorenses, e não o contrário. Isto implica a valorização da nossa identidade: a educação humanista digital deve utilizar ferramentas tecnológicas para fortalecer a identidade nacional, o bem comum e o enraizamento da nossa fé.

O papel do professor é o de acompanhante e guia nesta “selva digital”. Quem ensina deve também ajudar os estudantes na formação do discernimento. É fundamental ajudar os jovens a distinguir entre o bem e o mal que o mundo tecnológico oferece. A invasão dos meios técnicos exige a educação de uma consciência reta e crítica, capaz de formular juízos morais. Somente o ser humano tem a capacidade de raciocinar, avaliar e agir com consciência. Em Timor, onde o acesso à informação cresceu mais rápido do que a capacidade crítica para a filtrar, o professor torna-se a figura central que ajuda o aluno a distinguir a verdade da desinformação (fake news).

A educação humanista coloca a ética como base para humanizar o homem perante a invasão do tecnocentrismo: Educar para a Responsabilidade Social: O potencial digital dos jovens deve ser canalizado para o bem comum. Cuidado com a Saúde Mental: As universidades devem estar atentas aos impactos das redes sociais no bem-estar dos jovens, promovendo um ambiente de acolhimento que previna o isolamento e o cyberbullying, reforçando os laços de fraternidade defendidos pelo Papa Francisco.

A importância da literacia digital é vital numa era onde o domínio tecnológico influencia o nosso modo de ver e pensar. Esta literacia visa educar os nativos digitais sobre as “luzes e sombras” da tecnologia. Ela pode construir um novo humanismo que não veja a tecnologia como inimiga, mas como um meio de auxílio que facilita o desenvolvimento e o progresso integral do homem.

Conclusão

Por fim, gostaria de destacar os três eixos da educação humanista, segundo o ensinamento do Papa Francisco, baseados na capacidade natural do ser humano de ver, sentir e agir. O Santo Padre sugere que a teologia da educação se manifeste através de três linguagens integradas: A Linguagem da Cabeça: É preciso educar os jovens para o pensamento crítico e para a busca incessante da verdade, especialmente em tempos de desinformação. A Linguagem do Coração: Importa formar os jovens na escola da empatia e da compaixão, virtudes que fortalecem as relações humanas, tornando-as mais fraternas e solidárias. A Linguagem das Mãos: Educar para o serviço que promove a justiça social e o bem comum. A educação deve conduzir o homem à vida prática: saber amparar os últimos e os mais necessitados, ser capaz de servir e amar os outros, construindo assim um mundo mais humano. Através das suas competências técnicas e digitais, os jovens são chamados a transformar o conhecimento em ação prática e em serviço generoso à comunidade e à sociedade.

Aos meus queridos estudantes do ISFIT, deixo este apelo: “Não deixem que o algoritmo decida o que vocês devem pensar; sejam vocês os arquitetos da vossa própria consciência.”

Tenho dito. Muito obrigado pela vossa atenção.

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